segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Remembering Sunday

   Acordei de um pesadelo, assustado e ofegante. Olhei o meu despertador; eram duas da manhã. No momento em que eu sentei na cama, foi como se um martelo tivesse atingido a minha cabeça com uma força inimaginável; era a ressaca deixando bem claro que haviam dias que eu não ficava sóbrio o suficiente para me sentir disposto novamente. Coloquei o meu par de sapatos, mais especificamente meu velho all-star sujo,  jeans e um moletom, e saí de casa. Meu corpo estava contra o vento forte da madrugada, eu estava inclinado em direção a brisa fresca que chicoteava o meu rosto. Tentei me desapegar do pesadelo que eu tive, mas eu continuava pensando naquele domingo. Ah, aquele domingo...O ar estava frio, mas eu senti uma lágrima quente escorrendo pelo meu rosto. Caí de joelhos na calçada. E foi aí que todas as memórias vieram a tona.  
    "Ela estava linda. Faziam poucos minutos que havia despertado de um sono profundo, e por isso seu rosto ainda estava corado e seus olhos tão azuis quanto o oceano. O cabelo despenteado e sedoso escorria pelos seus ombros magros, porém angelicais. Eu estava na cozinha preparando o café da manhã, e ela me abraçou por trás, quando eu virei e a beijei."
    Meus joelhos estavam doloridos no momento em que eu me levantei do chão. A dor não passava nunca, da mesma forma como as lágrimas infinitas não paravam de escorrer. Continuei andando sem rumo, sem destino, quando me dei conta da onde eu estava. Era um lugar bem familiar. Parei em frente a casa amarela com um jardim bem cuidado, e meu coração estava prestes a saltar pela minha boca. 
    "Já tínhamos terminado de tomar nosso café. Levantei da cadeira, e fui em direção a ela, e beijei de leve seu pescoço. Ela deu um sorriso e levantou também. Não disse nada; apenas olhou no fundo dos meus olhos e segurou a minha mão. Me puxou pelas escadas com um sorriso malicioso e perverso, mas que ao mesmo tempo te seduz e te faz sentir confortável. Era o tipo de sorriso que te fazia querer saber todos os pensamentos da pessoa, mas era impossível pois o mistério que a envolvia era maior que tudo isso. E eu estava morrendo para descobrir todos os desejos, todos os sentimentos, todas as vontades que ela possuía dentro de si."
    Eu ainda estava parado em frente a casa amarela e familiar com um jardim bem cuidado. Meus pensamentos estavam tão confusos e embaralhados, mas aquele domingo não saía da minha cabeça de jeito nenhum. Eu não sabia porque estava parado ali, em frente a casa amarela e familiar com um jardim bem cuidado. Talvez eu estivesse apenas querendo descobrir a minha vocação, o meu dever neste mundo, e o porque de eu estar tendo pesadelos sobre aquele domingo. Olhei em volta, eu estava envolvido pela escuridão e me senti sozinho, muito sozinho. Comecei a conversar com os meus próprios pensamentos para tentar me sentir no mínimo um pouco menos abandonado. ´´Você viu esta garota? Ela está percorrendo os meus sonhos, e isso está me levando a loucura, estou ficando louco. Talvez eu...talvez eu a peça em casamento.``
    "Eu sabia que no fundo ela não acreditava em amor, mas quem negaria todas essas borboletas? Afinal, elas estão preenchendo todo o meu estômago."
     Comecei a tocar as campainhas de todas as casas assim que me dei conta de que a casa amarela e familiar com um jardim bem cuidado estava vazia. Os vizinhos atendiam a porta com uma cara mal humorada, o que é compreensível, sendo que eram apenas duas e meia da manhã e eu estava perturbando o sono de todos. Perguntei a eles aonde ela estava, e a resposta era sempre a mesma. Eles disseram que ela havia se mudado para longe, muito longe, para um lugar aonde nem eu e nem ninguém que andava sobre a Terra seria capaz de chegar. Eu me sentia mal, como se tivessem me socado no estômago repetidamente, várias e várias vezes, e eu sangrava por dentro. As lágrimas estavam escorrendo novamente... Engraçado como havia chovido o dia anterior inteiro, eu não havia pensado muito nisso mas agora tudo estava fazendo mais sentido. Oh, agora eu posso ver que todas estas nuvens estão me seguindo...me seguindo nesse meu esforço desesperado e inútil de tentar encontrar o meu alguém, aonde quer que ela esteja...
    Fechei os meus olhos e sua imagem se projetou na minha mente. Linda. Linda como sempre. Olhos tão puros e tão azuis. Uma voz doce sussurrou em meu ouvido.
    "Eu não estou voltando, eu nunca mais vou voltar. Eu fiz algo tão terrível que estou apavorada para falar, mas você já deveria esperar isso de mim. Eu estou confusa, bagunçada, não vou negar. Você está me levando a loucura, e neste momento a chuva está lavando você dos meus cabelos... Mas fora da minha mente, estou mantendo meus olhos voltados para o mundo. De tantos milhares de metros do chão, eu estou literalmente acima de você agora. Estou em casa, no meio das nuvens macias e carregadas de compaixão, que se elevam acima de sua cabeça." 
    Abri meus olhos. A voz sumiu, assim como a imagem dela da minha mente. Eu entendi a mensagem, eu entendia tudo agora. Eu a perdi e nunca mais conseguiria o que nós tínhamos de volta, afinal, ela estava a milhares de metros de distância de mim, em sua casa no meio das nuvens, esbelta e linda, como um anjo deve ser. Continuei a caminhar. Acho que vou para casa agora.