domingo, 4 de abril de 2010

Trecho do Diário de Nina.

”Não, provavelmente eu nunca aprenderei a viver. Pois é: caminho, busco alguma coisa parafazer, mas não acho nada, e então me sento inutilmente em algum lugar e começo a pensar. Só agora compreendi como são tolos, monótonos e limitados esses pensamentos, como é pouca a liberdade criativa que há neles e como são míseros. Agora compreendi que não sou inteligente nem suficientemente dotada, mas resignar-me… nunca!
Não quero e não posso me dizer com tranquilidade: A natureza não lhe deu talento, seja como for você não obterá nada, portanto relaxe e viva como os demais: em silêncio e sem fazer-se notar. Sou demasiado ambiciosa e orgulhosa para me dar por vencida, para admitir que sou inadequada à aventura. Até hoje não consegui aprender como reconhecer serenamente a superioridade das pessoas em relação à mim. Estas são incontestáveis, e isso me fere profundamente; a cada instante, e eu estou sempre querendo emulá-las.
Minha vida agora não passa de autoflagelação, humilhação e ofensa. Cada tirada espirituosa que não seja dita por mim, cada gesto feliz ou achado que não sejam meus suscitam uma pergunta tormentosa e corrosiva: por que eu não inventei isso, não fiz isso? E você começa a puxar pela cabeça, passando em revista tudo o que há ali dentro, e não há nada. Nada! Palavra horrível!
A ambição é uma coisa terrível. Significa que eu nunca estarei satisfeita, sempre tentarei me situar acima de todos e, alcançada a meta, sentirei que estou pavorosamente sozinha. E não sei se devo combater esse sentimento, renunciando para sempre a todos os meus projetos, ou se devo desenvolver minha vida, almejar, desejar e me atormentar. Quando a ambição se une ao talento, disso podem derivar resultados brilhantes, mas uma ambição desprovida de talento? É simplesmente um escárnio”

O Diário de Nina Lugovskaia.